domingo, 18 de maio de 2008

Contrato

Era a mesma coisa de sempre. Um buraco enfumaçado, cheirando a cigarro, desodorante vencido e perfume barato. Aquilo já deve ter sido um lugar bem freqüentado, talvez na época de JK, mas hoje era só mais um bar de chão imundo e aperitivos duvidosos. Por todo lado o resto da sociedade enchia a cara, cidadãos de segunda, se embriagando com bebida de terceira. Nessa hora da madrugada todos os tipos estão por aqui, bebendo e se empanturrando com vísceras e coisas que nem eles conseguem identificar.

Um sujeito velho, com cara de cansado e usando uma camisa branca encardida me pergunta "vai beber o que?". Peço uma cerveja, ele se vira sem falar nada e desaparece na fumaça. O maldito nem perguntou a marca. Quando volta trás uma garrafa sem rótulo e um copo ensebado. Tira a tampa e entorna meio copo de um líquido meio amarelo, o resto é preenchido com uma espuma pegajosa. Uma coisa escura flutua sobre a espuma. O ser branco encardido desaparece na fumaça de novo. Ainda me pergunto como vim parar aqui, o que diabos me levou a este fim de mundo? A cerveja está quente, tem gosto metálico. A coisa branca volta e deixa um pedaço de papel sobre a mesa, debaixo da toalha: "Scol I". Parece que agora eu sei o que estou bebendo.

Trabalho. Estou aqui pelo trabalho. O dono do contrato queria me ver aqui, talvez ele pense que este seja o ambiente ideal para fechar o negócio e encomendar o serviço. Esse cara anda vendo muita televisão.

O primeiro contato foi feito como sempre, um telefonema para meu agente. Agente é um nome pomposo para o filho da puta que fica com 10% do contrato. Mas só ele me conhece, só ele sabe como me achar. O processo é simples, ele coloca um anúncio em um jornal por 5 dias e eu respondo. Ele dá o serviço, se me interessar marco o encontro. Mas o contratante nunca sabe quem sou, eu o procuro. Hoje eu estou aguardando um sujeito alto e de chapéu de vaqueiro. "Que diabos é um chapéu de vaqueiro?", nem termino o pensamento e o rei dos chapéus de vaqueiros irrompe pela porta de correr da birosca. Uma figura saída da arena de Barretos. Pelos fundos da arena. Calça jeans nova, bota, um cinto que poderia prender um elefante , uma camisa vermelha e um chapelão preto em cima de um punhado de cabelos brancos mantidos no lugar com duas toneladas de gel ou óleo de soja. Carrega uma bolsa pesada no ombro direito. Ele passa por mim e senta-se em uma mesa no fundo do inferninho. Logo depois um tipo mal encarado segue o mesmo caminho e vai se sentar na mesa ao lado. Quando se senta noto o volume em seu tornozelo, um snub de aço carbono. Também trás algo maior na cintura. Policial. Ele deveria ter vindo sozinho, esse era o acordo. A coisa não começou bem. Nunca começa.

Deixo passar uns 15 minutos sem que nada aconteça. Preciso ter certeza de que não tem mais ninguém por lá. O contratante parece nervoso, está na terceira cerveja, olha tanto para o cara do snub que fica impossível o boteco inteiro não notar. Preciso ser rápido, eles chamam muita atenção. Acaricio o punho 1911-A1 com a ponta dos dedos e me certifico que a trava está no lugar. Me levanto e passo pelo chapelão, dou a volta e me sento na cadeira ao seu lado. O mal encarado se mexe e leva a mão a cintura.

"É você?", pergunta o chapelão.
"Depende de você. Mas antes mande o seu amigo ali dar uma volta.", digo virando os olhos para o cara do snub. O chapelão fica parado me olhando, como que pensando se valia à pena se arriscar comigo. "Vai lá pra fora", rosna para o policial. O cara se levanta, passa por mim e noto o punho de uma velha .380, sem coldre, envolto apenas pelas banhas da barriga e as pregas encardidas da calça. "Civil, das antigas, relapso", penso enquanto o sujeito some na fumaça.
"Você tem que tombar um cara pra mim. A grana tá aqui na bolsa", diz o chapeleiro louco movendo a mão em direção à bolsa. Deslizo a mão para o bolso direito e um movimento rápido do polegar abro o Spyderco Police e o encosto na camisa de rodeio do cara do chapéu. "Calma aí companheiro, volta a mão pra mesa e vamos conversar".
O homem do chapéu se assusta e puxa a mão rápido demais, entornando a coisa amarela que bebia pela mesa. "Caralho!", exclama, não sei se pelo copo derrubado ou pela lâmina inox espetando o seu bucho cheio de merda.
"Fica frio. Eu sou o cara sim, mas precisamos conversar primeiro. O dinheiro vem depois."
Levanto o copo caído enquanto o cara do chapéu se recompõe. Ele suava como um porco, o sebo do cabelo começava a escorrer pela lateral da cabeça. São sempre assim, valentes o suficiente para mandar matar, mas sempre covardes.
Guardo o Spyderco e me ajeito na cadeira ao seu lado. Olho em volta e pelo visto ninguém na espelunca notou a lambança. Melhor assim, menos sujeira.
"Diga, o que você quer?"
Ele suspira, tira o chapéu e passa mão pela massa ensebada que chama de cabelo. As abas pretas voltam para o topo da cabeça. "Tem um sujeito que trabalha pra mim, tá me trazendo problemas. Você vai resolver pra mim."
"Já pensou em demití-lo?"
"Não posso, é meu afilhado."
"Mas pode mandar matar o infeliz..." penso comigo. Corja imunda. "Quem é e onde acho?"
"Ataíde, Ataíde dos Santos Silveira. Mora no São Geraldo, mas passa o dia todo na fazenda do Cradinho. Ele trabalha naquela fábrica de queijo lá, sabe onde é?", sim, seu sabia onde era.

A fazenda do Cradinho era um lugar com história. É da época do império, era uma propriedade imensa que foi sendo partilhada ao longo dos anos, brigas de família, heranças, estas coisas de gente rica. Hoje é de um milionário de Goiás. Foi invadida muitas vezes por movimentos sociais, estes mesmos que botam fogo nas casas e destroem as plantações no nome de uma tal reforma agrária. Palhaçada. Já fiz um trabalho lá, líder sindical, ou seria social? Sei lá, mas foi um trabalho bonito. Nunca acharam o cara. Ninguém pensou em procurar na fossa da casa grande.

"E como quer?", pergunto ao vaqueiro.
"Como assim? Quero o cara morto porra!"
"Só isso? Sem detalhes?"
"Mata o cara e pronto."
Odeio gente sem imaginação. "O que tem na bolsa?"
"Dez mil. Mas como vou saber se vai fazer o serviço? Se não fizer como eu fico?"
"Provavelmente morto. Se eu não fizer o serviço este vai ser o seu menor problema." Me levanto, pego a bolsa e saio de perto daquele monte de estrume. Eu tinha um trabalho a ser feito.
O dia começou mal, a porcaria que bebi na espelunca ontem deixou lembranças na louça imaculada do meu banheiro. “Merda de buteco fudido!”, o pensamento desapareceu quando me lembrei que precisava de um carro para o trabalho. Normalmente não gosto de usar meu carro para trabalhar, isso pode me ligar ao trabalho, mas às vezes não tem problema. Dessa vez resolvi ir nele mesmo, a Cradinho não era longe e eu já conhecia o terreno. O líder social tinha sumido à noite, sem rastros e sem carros. Um problema a menos. Agora precisava encontrar o melhor meio de executar o trabalho do queijeiro. Pesquisa, pesquisa...

A viagem de 25 km até a fábrica de queijo foi rápida, era uma estrada bonita, cercada de pastos e milhares de vacas pastando, produzindo esterco e gás de efeito estufa. Uma bela plantação de picanhas.

A fazenda do Cradinho era famosa pela produção de queijo e leite de qualidade, coisa cara. Tinha uma sede dentro do terreno e uma loja na frente da fábrica, bem na margem da rodovia. Vendiam queijos e serviam lanches com produtos da fazenda. O chapelão colocou um dossiê ridículo do tal do Ataíde dentro da bolsa, junto com a metade do pagamento. Lá dizia que ele trabalhava como supervisor na fábrica, turno do dia. Ele entrava às 9, saía à 5. Perfeito. O melhor era a foto que acompanhava o dossiê, o chapeleiro louco abraçado ao Ataíde e mais duas pessoas. Pra não haver dúvidas havia um círculo feito com esferográfica em volta da cabeça do afilhado... Esse cara via muita televisão.

Passava um pouco das oito da manhã, fazia um frio confortável quando encostei o carro em frente à loja. Desci, olhei em volta e me espreguicei. A entrada para a fábrica ficava bem ao lado da loja, um portão velho repintado de branco umas 30 vezes. Logo atrás dele ficava o estacionamento e o prédio da fábrica. Entrei na loja e fingi estar olhando as prateleiras laterais. Havia uma janela nesta parede que dava uma visão perfeita para o pátio do estacionamento da fábrica. Pedi um café, pão de queijo e me sentei em uma mesa com vista para a janela. Não demorou e um Escort azul claro passou pelo portão branco. Um sujeito magrelo e quase sem cabelos desceu com cara de sono. Era o Ataíde. Subiu os poucos degraus da entrada do escritório e passou pela porta da fábrica. Anotei mentalmente a placa e terminei meu café. Comprei duas barrinhas de mussarela, voltei para o carro e segui na estrada. Mais tarde me encontro com ele.
Uma das coisas mais difíceis nessa profissão é decidir como executar o serviço. Muitas vezes é preciso pensar muito para que não use o método errado. O tal do Ataíde era uma vareta, dava pra acabar com ele só na porrada, mas eu não gosto de usar as mãos assim.Precisava de um jeito melhor e menos sujo. Pelo dossiê, ele vivia em um pequeno apartamento no segundo andar de um prédio sujo no centro. No momento estava sozinho, já que a mulher, sobrinha do Zé do chapéu, o havia deixado há pouco tempo. Estacionei duas ruas depois do prédio sujo e andei até o endereço. Não havia ninguém na porta do prédio, uma coisa enferrujada e faltando duas dobradiças. Subi as escadas e saí em um corredor pequeno com quatro portas. Era um pequeno condomínio de apartamentos antigos com paredes mofadas e chão de cerâmica barata. Fui até a porta do apartamento 201. Não havia companhia, a velha porta marrom tinha uma maçaneta redonda e antiga, chave cilíndrica típica. Não seria difícil entrar, mas tive outra idéia.
Saí do prédio como se morasse lá, andando sem olhar para trás e na direção contrária de onde parei o carro. Encontrei o que procurava uma rua depois, um pequeno mercadinho de secos e molhados. Comprei três latas de inseticida em spray e um tubo de super cola. Voltei pela outra rua para carro. No caminho parei em uma farmácia e comprei uma caixa de luvas cirúrgicas, um par de luvas grossas de borracha e um barbeador descartável. Tinha uma coisinha para preparar.

Nunca gostei de trabalhar com venenos, era uma coisa perigosa e meio imprevisível. Mas as aulas que tive ainda estavam frescas na memória e eu sentia que precisava aprimorar algumas ferramentas. A redução do inseticida para extrair o seu princípio ativo demorava um pouco e era bem perigosa. Ferver veneno não é exatamente a coisa mais saudável do mundo. A fervura levantou rápido e eu tinha que me manter contra o vento, não confio muito nestas máscaras baratas. Precisava manter o fogo baixo, aquilo não era um flambado. Depois de uns minutos o caldo verde e grosso que eu queria estava no fundo da panela. Desmontei o barbeador usando um alicate e separei as três lâminas. Calcei as luvas de borracha e passei com cuidado as lâminas pelo caldo grosso no fundo da panela, Dalí as deixei para secar. Processo complicado e bem delicado. Era quase meio dia. Saí de casa e fui almoçar. Comi um belo espaguete com filé na cantina do Tutti, um italiano das antigas, cliente habitual. Era um bom restaurante, com a vantagem de que eu não pagava nunca. Voltei para casa, calcei novamente as luvas e embrulhei as lâminas já secas em um papel grosso. Segui de taxi até o prédio sujo onde o Ataíde morava. Entrei direto pela ferrugem sem dobradiças e subi as escadas devagar. Levava um pacote debaixo do braço e uma pequena bolsa no ombro. Tirei dois pares de luvas da bolsa, as calcei e peguei o pacote com as lâminas. Agora vinha a parte difícil, se alguém aparecesse nesse momento seria difícil explicar minha presença ali. Fui até a porta do 201 e passei um pouco de super cola na parte de trás da maçaneta. Com muito cuidado desembrulhei as lâminas e fixei duas delas na cola da maçaneta. Qualquer um que pegasse naquela maçaneta iria receber um corte fino na pele.

Passava um pouco das uma e meia, ainda tinha muito tempo antes do Ataíde voltar. Ele saía da fábrica as cinco, deveria chegar em casa uma meia hora depois. Era uma boa hora para perambular por aí e tomar um café.


Continua...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

A maldade está nos olhos do observador

Ela já estava na cama quando ele chegou, seu irmão dormia ao lado. Ele ficou fascinado com sua beleza, ela era linda. Muito nova, mas linda. Pela primeira vez admitiu que tinha inveja do irmão mais caçula.

Ele se sentou na cama ao lado dela. Ela, claro, não se moveu. Juntou toda sua coragem e passou levemente a mão por sua pele macia, sentiu um arrepio ao notar como era suave e fresca. Segurou uma exclamação de prazer, não podiam fazer barulho, o irmão dormia a centímetros dali. Sentiu-se um pouco envergonhado, era errado desejar o que era de seu irmão? Ficou apreensivo, nunca havia feito aquilo, e se alguém os visse?

Ignorando todo o bom senso ele a puxou devagar para perto de si. Ele estava sentado na cama e ela sobre ele, imóvel. O quarto estava na penumbra, então, tateando com os dedos ele soltou dois pequenos cordões que prendiam alguma coisa na parte de cima. Olhou para ela com atenção e o que viu o deixou em êxtase, não havia nada o que soltar na parte de baixo. Ela tinha que ser dele, seu irmão não a merecia!

Com delicadeza ele deslizou os dedos para dentro dela. Era macia ao toque, quente. A textura sedosa que sentiu nos dedos o levou a um estado de puro desejo e num rompante de luxúria extrema ele a abriu com suavidade e tentou se enfiar lá dentro. Era difícil, ela era pequena e nova e já haviam lhe dito ele era muito grande. Além do mais, ele devia ter cuidado afinal ele seria o primeiro!

Estava difícil, ela estava rígida, tensa, não cedia. Segurando um gemido ele tentou abri-la um pouco mais, fez força com as mãos por baixo dela e se empurrou com força para seu interior. Aquilo doía, mas ele manteve a pressão e ignorando a dor e o absurdo de seu ato finalmente notou que havia conseguido. Estava dentro dela! A sensação era ótima, se sentia aconchegado, aquecido, apesar de um pouco espremido. Tentou tirar e sentiu que ela resistia, ainda estava rígida e tensa. Devagar e com carinho conseguiu sair e entrou novamente, desta vez com mais força. Repetiu o movimento de entrar e sair algumas vezes e descobriu que, afinal, ela não era tão pequena assim.

Resolveu mudar de posição, sentado na cama não poderia experimentar todas as sensações. Queria senti-la sob o seu peso. Levantou-se, mas a dor quase o fez cair. Ela era pequena por dentro, apertada. Fez força com as pernas e conseguiu se colocar de pé. Mas o incômodo era muito grande, sua pele estava esticada e parecia que ela ia se romper. Mordeu os lábios para não gritar e se deixou cair novamente na cama. A dor era incrível, saiu de dentro dela o mais rápido que pode e, ofegante, atirou-a de volta na cama. Olhou em volta assustado, perscrutando a penumbra. Levantou-se envergonhado e saiu apressado do quarto.

Naquela noite ele jurou a si mesmo que nunca mais tentaria calçar a bota nova de seu irmão caçula.

Primeira

"Festa chata, queria saber onde estava com a cabeça quando aceitei vir. Devia ter ficado em casa e terminado a porcaria do livro."

Este foi o último pensamento antes dela aparecer. Deve ter sido o último pensamento racional de sua vida, 18 anos depois de começada. Não que a vida tivesse sido difícil ou problemática, pelo contrário, foi confortável e tranqüila. Isso só aumenta a dúvida sobre o que provocou a ira, o desejo.

Passava um pouco das 11 da noite e o repique chato da música eletrônica enchia seus ouvidos e sua paciência.

"Merda de música de frescos", pensava enquanto via aquele monte de viados balançando a cabeça como doidos ao som da batida repetitiva. Se sentia dentro de um grande Pac-Man.

Estava ali por muita insistência do Valtinho. Porcaria, o cara era um mala, mas era o mais perto que podia de um amigo. E ele não tinha muitos. Na tarde anterior passou em sua casa pra buscar o LP do DIO, aí o Valtinho falou da tal festa.
"Vai na festa no Thales de Lima?"
"Que festa, porra?", já pensando nas merdinhas que o tal Clube de Cultura do bairro promovia no pátio da escola pública.
"A turma da Thaís, aquela gordinha metida a gostosa, tá fazendo uma furrupa lá no Thales. Contrataram aquele cara do som que fez a abertura do Jimes lembra?"
"Ih caralho, vai ser a mesma merda de sempre, aquele bando de viado e as fresquinhas de roxo, vô não."

Da última vez ele tinha enchido a cara e saído na porrada com uma turma do outro bairro que apareceu no lugar. Desceu o cacete num moleque com cara de retardado, bateu pra valer. Depois as menininhas mimadas ficaram falando que ele era brigão, que não precisava daquilo, estas coisas. Ali ele jurou que nunca mais ia nestas festas. Mas o Valtinho, sabe Deus como, o convenceu de ir com ele "pra tomar uma cachaça e ver as gostosas".

E lá estava ele. Encostado na parede, lata de cerveja na mão direita, Hollywood entre os dedos da esquerda. O merdinha do Valter já tinha dado o pinote, se enrolou com a Val e sumiu. Pela milésima vez jurou que nunca mais saía de casa com esse sujeito. O cara falava em fazer bagunça, tocar o horror mas sempre aparecia a tal Valdirene ("Nome de puta da porra") e ele sumia. Pensou no Tolstoi por terminar em casa, a prova era na quarta...

"Festa chata, queria saber onde estava com a cabeça quando aceitei vir. Devia ter ficado em casa e terminado a porcaria do livro."

Aí começou. No meio da confusão de plumas, meias arrastão e topetes ele a viu. No princípio pareceu apenas mais uma bonequinha da zona sul, com aqueles cintos enormes, parecendo barrigueiras de éguas, e botas de couro falso. Como odiava estas coisas! Moda, música eletrônica e a tal era de aquário. Era de Aquário; na verdade nem sabia do que se tratava, mas como estava na moda e esse pessoal vivia falando nisso, ele não gostava. Mas, ela era bonita. Loira falsa, vestindo preto e uma faixa na cabeça. Cabelo amarrado para cima, parecendo a Madona. Era bonita. Mas não era isso, a sensação era diferente...

No começo não notou. Olhou a garota de preto, achou bonita. Mas havia outras garotas bonitas ali, e ela nem era tão bonita assim. Mas ele não conseguia tirar os olhos dela. Ela dançava, se mexia de um modo que o deixava inquieto. Seu corpo balançando na sua frente o fez esquecer a Skol e o Hollywood. Ficou pensando em quem seria, de onde teria saído. Ele nunca a tinha visto, se tivesse certamente se lembraria. Olhou em volta procurando pelo viado do Valtinho, mas o filho da puta devia estar comendo a Val em algum canto. Ele sempre fazia isso. O sujeito era feio pra caralho, só perdia para a Val, mas conhecia todo mundo por causa do violão. Ele devia conhecer a loira de preto.

"Onde aquele merda se enfiou? Já que me trouxe aqui pelo menos podia adiantar o meu lado com loira".
Desencostou da parede, olhou em volta.
"Merda!"

Deu uns 10 passos para a direita e tentou olhar por sobre a multidão que se balançava a sua frente. As luzes da pista o ofuscaram, algum imbecil tinha colocado um canhão bem na sua cara. Amaldiçoou o infeliz e foi para o outro lado. Olhou de novo, não queria perder a loira de preto de vista. Quando voltou a cabeça para a esquerda avistou o Ximbira (Kleber Pereira Antunes da Fonseca, como gostava de se apresentar), o cara mais chato da escola. Ximbira era tão petulante que desde o dia em que o conheceu só pensava em quebrar seus cornos. Mas agora até que o infeliz podia ser útil.

"Ximbira, viu o Valtinho? Preciso falar com ele."
"Vi não. E meu nome é Kleber, caralho!"
"Tá bom, Kleber caralho, cê viu o Valtinho?"
"Vi não, já falei."
"Vem cá, cê sabe quem é aquela... Ai! Porra! Caralho!", gritou quando o cigarro queimou seu dedo. Sacudiu a mão e jogou um pouco de cerveja choca na queimadura. Havia ficado tanto tempo olhando a loira que o Hollywood se consumiu sozinho. Ficou uma bolha no indicador. Olhou o dedo e disse mais uns dois palavrões antes procurar pelo Ximbira de novo. Mas ele já havia saído. Tomou o último gole da lata morna, não sem antes olhar para a multidão e conferir se a loira ainda estava lá. Ela estava.

Não havia ninguém para lhe dizer quem ela era. Viu as colegas da Thaís, mas jamais iria até elas pra perguntar. Tinha medo de que a conhecem mesmo e acabasse por estragar tudo. A irmã da Val também estava por lá, mas ela estava fora de questão. Desde que tinha saído com ela, para fazer companhia ao Valtinho e enganar a mãe dos monstrinhos, tinha certeza de que não queria experimentar aquele hálito de novo. Dizia que o Valtinho estava envolvido com a família Adams.

"O que não se faz por um amigo? Aquele viado ainda me paga...", pensou e soltou uma praga.

Ela o incomodava. Ele não sabia por que. E isso o incomodava. A loira de preto dançava, se contorcia ao som de Billy Idol e balançava os cabelos como que para provocá-lo. Era como se ela estivesse sozinha naquele pátio de colégio transformado em pista de dança improvisada. Estava quente, metade do mês de março de 1988. Ela suava, seu corpo estava molhado, o vestido preto estava grudado em suas costas, justo, ele via a marca do sutiã, seu fecho e alças. Era curto e não escondia nada, mas também não mostrava muito. Ele imaginava.

"Preciso de algo mais forte."

Foi até o bar, um caixote de papelão colocado no balcão da cantina, e chamou o Tapado. Tapado, nascido Cláudio Cunha, era o maconheiro da escola, o cara que todo mundo procurava quando queria se divertir com químicos e afins. Se precisa de um aditivo, fala com o Tapado. Colocar o Tapado como caixa da festinha era o melhor que a turma conseguiu. As professoras não permitiam que vendessem nada além de refrigerante na escola, mas o Tapado tinha seus fornecedores. Eles ficavam do lado de fora, de onde vinha a cerveja morna e o Red Label falso. Dessa forma, as fichas do caixa serviam para refrigerante dentro da cantina e cerveja e mercúrio cromo do lado de fora. Com um pouquinho mais de grana também viravam um baseado. Mas ele sempre mantinha o seu estoque pessoal de rum ao alcance. Tapado era viciado em Bacardi. Daí vinha seu apelido, por causa do pirata com tapa-olho no rótulo.

"Tapado, tô precisando de uma turbinada."
"Ôpa, mas fumar aqui é sujeira, vai dá um passeio lá fora e fala com o Rangel, ele tá lá na caixa de cerva."
"Não cara, tô querendo uma birita. Me dá uma coca aí e calibra com seu Bacardi. Aproveita e esconde essa garrafa direito, tá aparecendo no meio das fichas."
"Vou te quebrar essa, mas segura a onda. Da última você arrebentou o moleque da 18, tá lembrado?"
"Relaxa, tá tudo certo. E esse povo da 18 é tudo vagabundo mesmo, foi bom que eles sumiram."

Cláudio Tapado se certificou que não tinha ninguém olhando, pegou um copo e despejou uma generosa porção de Bacardi Carta Oro com duas gotas de coca-cola e passou. Fez um "positivo" com a mão e voltou para o caixa.

O rum desceu amargo, seco. Mas o calor no estômago o encheu de coragem. Imaginou que com a cabeça mais solta teria melhores chances com a loira de preto. Tomou outro gole grande e pensou em como o Cláudio podia gostar daquilo? Ele preferia sua cerveja, mas a atual situação pedia algo mais forte, e ele já fora vítima do Red Label paraguaio do Rangel ... Voltou para o seu canto da parede, e procurou a loira. Ela não estava mais na pista.
"Porra, cadê a mulher?"

Ele olhou em volta e não a viu mais. A pista continuava cheia e a música ainda enchia o saco, mas ela tinha sumido. Sentiu um aperto no peito, um medo repentino. Deu mais um gole no Bacardi e saiu para procurá-la.

O movimento em frente ao caixa improvisado estava grande, então deu a volta na turba de clientes do Tapado. Passou pelo meio da pista, empurrando com o corpo os outros corpos que insistiam em ficar em sua frente. A cada toque uma mistura de suor, saliva e refrigerante impregnava seus braços e ombros. "Isso é nojento... Sai da frente, caralho!", pensava enquanto avançava em meio a confusão de patricinhas e viados. Emergiu do outro lado da pista e saiu no pátio externo da escola. Havia muita gente ali. O pátio era aberto e as pessoas se espalhavam por lá, sentadas em carteiras escolares tiradas das salas, ou apenas amontoadas em grupos.
"Será que ela veio pra cá?"
Olhou mais uma vez em volta e a viu. Ela estava de pé perto da parede das salas de aula. Havia alguém com ela, parado em sua frente. Era um homem, mas o cara estava de costas e ele não conseguia identificá-lo.
"Que merda é essa, quem é aquele filho da puta?"

Andou para o lado, procurando um melhor ângulo de visão. Esbarrou em um sujeito alto, desviou e parou de novo. Então ela o viu. Ela olhou um pouco para o lado e seus olhos se cruzaram. Por um segundo ficaram olhando um para o outro. Ele sentiu um arrepio e ficou imóvel, com a boca meio aberta, sem saber o que fazer. Ela deu um breve sorriso, tímido, baixou a cabeça e voltou a falar com o sujeito a sua frente.

Em sua cabeça as coisas ferviam, ele não sabia o que fazer ou o que pensar. Sua barriga estava fria como o pólo, o copo de rum em sua mão tremia e uma leve tontura o fez balançar um pouco. Ela havia mesmo olhado para ele e sorrido? Deu uns passos para trás e se encostou na parede oposta.

"E aí, tá tonto ou o que?"
Ele nem sentiu quando Valtinho chegou, deu um pulo e olhou assustado para ele.
"Quê isso rapaz, tá arisco?"
"Porra Valtinho, onde é que cê tava? Tem um tempão que tô te procurando."
"Fui alí com a Val, mas a porra da mulher tá de chico, fudeu. Quer dizer, não fudeu. Quê que é?"
"Tá vendo aquela loirinha ali na frente, de preto?"
"Com aquela coisa esquisita no cabelo? Sei. Quê que tem ela?"
"Ela mesmo, quem é?"
"Sei lá, mas é gostosa, heim? Por que?"
"Por que? Ué quero saber porra! E quem é o sujeito com ela?"
"Ih meu irmão, tá de olho nela? Esquece, aquele ali é Valdo, filho daquele pilantra dos ônibus, sabe? O tal de Sérgio Duarte, dono daqueles ônibus amarelos que rodam por aí. Deu uma parada no jornal outro dia, negócio de rolo com a prefeitura, sei lá. Mas o cara é sujeira, sai fora. Sem falar que nada em dinheiro."
"E eu quero saber do cara? Quero saber da loira. Cadê a Val? Vê com ela lá."
"Puta merda, quando cê bota uma coisa na cabeça é foda heim? Tá, vamo achar a Val. Mas me dá um gole dessa merda aí."

Eles saíram do canto da parede, passaram pelo meio da pista e foram para o outro lado do pátio. Val e suas irmãs estavam sentadas na escada que dava acesso à diretoria da escola. Mais duas garotas, Teca e Rita, estavam lá também. Devia ser o time feminino mais feio de todos os tempos.

"Val, o doido aqui quer saber quem é uma patricinha alí."
"Quem é?", disse a Val olhando torto para o Valtinho.
"Vai lá com ela Valter, mostra a garota."
"Tá bom, arruma mais desse porcaria aí, mas põe um gelo nessa merda, tá quente pra caralho! Vem Val, vô te mostrar a bandida."

Valtinho e Valdirene saíram para o meio da pista. Ele ficou ali parado, meio de lado para o resto da família Adams, pra evitar que puxassem papo. Já estava puto o suficiente para ter que ouvir aquelas mocréias.

"Tá de olho na patricinha é?", ouviu quase ao mesmo tempo em que sentiu uma mão no ombro e o cheiro de perfume barato. Era Rita, colega de sala de uma das irmãs de Val. Já tinham lhe dito que ela tinha uma queda por ele. Grande coisa. Rita, como o resto da turma ali, só não perdia para Val.
"Por que mulher feia não sabe ficar calada?", pensou enquanto se segurava pra não tentar melhorar aquela carranca com um soco no nariz.
"Tô não, acho que conheço a menina e quero saber se é ela mesmo.", mentiu.
“E para isso precisa pedir a Val para ver quem é?”
“Puta merda! Além de ser mais feia que o capeta do avesso ainda fica me enchendo o saco!”, pensou quase reconsiderando a idéia de cirurgia plástica na infeliz.
"Olha, você sabe quem é a garota? Não né? Então não perturba. Agora dá licença que vou dar uma mijada falou?", saiu e foi em direção ao banheiro. Estava mesmo precisando de uma aliviada na bexiga. O banheiro da escola, como todos os banheiros de escolas públicas do estado, era um lixo. Não, pensando bem lixo era melhor. Algum idiota havia deixado um rastro de vômito amarelo, salpicado de pedaços não digeridos de coxinhas e quibes, bem na porta de entrada. Achou melhor dar a volta e se aliviar na parede lateral do prédio, pelo menos o cheiro lá era melhor. Colocou o copo na beira da janela, abriu a braguilha e começou o serviço. Pensou em como seria o nome da loira de preto, se ela era conhecida na região. Ele ainda não sabia o que havia visto nela, mas sentia algo estranho, uma sensação nova, diferente. Parou de divagar quando o corpo arrepiou, terminou o que estava fazendo, fechou o zíper e pegou o copo na janela. Deu a volta pelo outro lado do prédio de modo a não chamar atenção e não passar pela porta do banheiro fedido. Voltou para a escada da diretoria e puxou um cigarro do bolso.

Valter e Valdirene voltaram uns minutos depois, com uma cara estranha. Ele se aproximou dos dois antes que chegassem à turma na escada.
“E aí?”
“A garota é da 18, seu nome é Andréa. Sabia que era sujeira.”, disse o Valtinho.
“Sujeira como? O pessoal da 18 é meio babaca mesmo, mas isso é só aqueles viadinhos lá. Quê que tem ela?”
“Ela ta lá agarrada no Valdo, pendurada no pescoço dele.”, completou a Val, não sem antes dar um sorrisinho de desprezo. Saiu em seguida e se sentou com as amigas na escada. Valtinho ficou lá e pediu um cigarro. Ele estendeu a mão e passou o maço ao amigo.
“Tá com o cara é? O filho do pilantra dos ônibus?”
“Te falei né? O cara tem grana... Vem, vamos lá fora buscar uma latinha com o Rangel.”

Os dois saíram, passaram pelo lado oposto ao pátio. Perto da porta ele ainda conseguiu ver os dois, encostados a uma parede. As mãos do tal Valdo estavam em volta de sua cintura, apertando e querendo descer um pouco mais.
“Merda!”
Virou o rosto, jogou o copo de rum pelo muro e foi em direção à saída.

O Rangel estava lá, como sempre com a tampa traseira da Brasília aberta, uma caixa de isopor surrada lá dentro e a mesma pinta de marginal de sempre. Filho de um caminhoneiro baiano, Rangel nunca teve mãe. Pelo menos não se lembra dela. Segundo seu pai ela “caiu no mundo” quando ele ainda era bem pequeno, em uma viagem que fizeram juntos para Aracajú, levando uma carga de bobinas de papel jornal. Desde então seu pai se encarregou sozinho de sua criação e educação. E estava indo muito bem. Como caminhoneiro estava sempre na estrada e aproveitava os conhecidos na Bahia e os espaços vazios no chassi de sua Scania 1972 para trazer boa quantidade de maconha para São Paulo. Fazia isso regularmente, e Rangel, como bom herdeiro, sempre conseguia uma porção para tocar o seu próprio negócio, junto com o Tapado. Rangel não estudava, abandou ha muito tempo para dividir a boléia com o pai traficante, assim o Tapado era seu contato na comunidade estudantil. O negócio dos dois ia bem, mesmo com renda suada dos seus clientes de classe média baixa.

“Dá uma latinha aí Rangel!”
“Fala Valtinho, cadê seu canhãozinho?”, disse jogando uma Skol em sua direção.
“Vai se fuder seu puto, pelo menos tô comendo alguém.”
“Pois é, quem come de tudo ta sempre mastigando... E aí, vai querer um hoje? Seu amigo aí ta com cara boa não...”
“Me erra Rangel! Dá uma lata também. Tá gelada essa porra?”
“Faz diferença? Toma aí. O que ta pegando? Que cara de azeitona mordida é essa?”
“Ele perdeu uma menina aí para o Valdo.”
“Cala a porra dessa boca Valtinho, perdi merda nenhuma, nem conheço a guria, caralho!”
“Valdo é foda, joga pesado.”, disse o Rangel. “Mas a garota não vai durar com ele, o cara gosta de dar porrada. Fiquei sabendo que ele desceu o cacete na irmã do Dirson, sem trocadilho. Depois o Dirson começou a ir atrás dele, pra acertar as contas. Aí os capangas do pai do cara deram um ‘cala a boca’ no Dirson. O Tapado até viu os caras. Lembra disso Valtinho?”
Valtinho balançou a cabeça e deu um gole na lata. “Já falei pra ele que o cara é sujeira.”
“Vão parar com essa putaria, quero saber do cara não, caralho! Nem conheço a porra da menina, deixa ela se fuder pra lá.”

A Brasília do Rangel era um ponto de encontro onde estivesse. Todos os maconheiros do bairro passavam por lá, não havia confusão e a polícia fingia que não via nada, pra compensar os presentes do Rangel. 1988 estava sendo um ano bom, tudo tranqüilo e seu pai estava viajando bastante. Rangel havia deixado a estrada há pouco mais de um ano para montar sua boca. Tinha planos de juntar dinheiro e comprar um caminhão para levar sua carga até o Paraná. Tinha contatos lá, feitos ainda na época dos fretes e assim não competia com o pai. De quebra ainda trazia umas muambas do Paraguai. Pelo menos estes eram os planos, mas por enquanto a Brasília bege ainda era a sua fonte de renda. A cerveja da velha caixa de isopor disfarçava o verdadeiro comércio que acontecia ali e ajudava a atrair mais clientes.

Ficaram todos por lá, em volta da Brasília, até o final da festa, ninguém quis entrar na escola de novo e ficar ouvindo aquele bate estacas, o Motoradio do Rangel soava melhor. Aos poucos as pessoas foram saindo, indo embora. Ninguém viu a Andréa ou o Valdo, o que não era incomum, já que os fundos da escola não tinha muros e havia mais duas portas laterais. Val passou por lá, acompanhada pelo restante da família Adams e foi embora. Valtinho foi com ela, provavelmente pensando em ainda ganhar algum favor sexual no caminho. Estava ficando tarde, era hora de ir para casa.
“Rangel, vou nessa. Dá o penico aí”, falou.
“Pega lá. Vai na paz.”

Pegou o capacete no banco traseiro da Brasília e saiu para buscar a moto. Há dois anos ele tinha conseguido comprar a 125 usada. O trabalho no escritório de contabilidade finalmente permitiu comprar alguma coisa. Tá certo que era uma Honda CG meio surrada, mas era sua e funcionava direito. Um dia ainda tirava a carteira. O tempo estava meio nublado mas o calor não melhorava. “Só falta começar a chover nessa merda...”, apressou o passo e chegou até a CG. Tirou o cadeado da roda traseira e o prendeu no chaveiro. Recolocou o cachimbo na vela de ignição. Desde que havia pego um moleque em cima da moto na saída de um bar há uns dois meses ele começou a colocar o pesado cadeado do portão de casa na roda traseira e a desligar o cabo de vela. Pra não esquecer, o cadeado ia preso no chaveiro, junto com a chave da CG, chegando em casa ele voltava para o portão. Aquilo também era útil na rua, foi com o cadeado na mão que bateu no moleque da 18.

Colocou o capacete, abriu o registro de gasolina, virou a chave e pisou no pedal de partida. O motor roncou preguiçoso. Ele ficou sentado na moto uns instantes, pensando se valia à pena passar em algum lugar antes de ir pra casa. Já havia bebido muito e não estava com fome. Mas um hambúrguer sempre ajuda a evitar uma dor de cabeça no dia seguinte. Resolveu ir direto ao Paraíba, um cearense que tinha carrinho de sanduíches duas ruas antes de sua casa. Asseio não era o forte do Paraíba, mas o hambúrguer com dois bifes e banana era gorduroso o suficiente para forrar o estômago e dormir bem. O problema é que nem sempre o Paraíba comprava bananas, mas valia à pena arriscar. Colocou a moto em movimento. Sua casa ficava a uns 10 minutos dali, mas menos de 5 se passasse pelo labirinto de ruelas com nomes imponentes que margeavam o matagal atrás da escola.

Quando pequeno era neste matagal que entrava para chegar até a Escola Estadual Thales de Lima. Havia uma trilha pelo meio do mato que o levava da rua paralela a sua até os fundos da escola, uma rua com um terreno baldio onde os restos de uma construção inacabada, que na infância foram sua “bat-caverna”, serviam de morada às corujas e seu prato principal, os ratos. Sua mãe sempre lhe dizia para não passar por ali e mais de uma vez levou uns tapas por isso. Mas ele conhecia bem os caminhos ali dentro. Foi ali que matou sua primeira vítima, um lagarto morto a pedradas junto a mais dois moleques. Ali foi onde aprendeu a subir em árvores, onde aprendeu a beber escondido, vomitando as tripas depois de dividir meia garrafa de Drink Dreher com o Valtinho. E foi ali onde perdeu a virgindade aos 15 anos. Nicéia era o nome da menina, “Nici Putinha”, como todos a conheciam. Ele se lembrava bem dela, era a putinha do bairro e já tinha dado para todo mundo. Ela gostava daquilo e fazia por qualquer coisa. Com ele não foi diferente e sua primeira relação foi fruto de uma aposta, uma que ela perdeu. Haviam apostado que ele não conseguia comer um pimentão verde, coisa que ele realmente detestava. Mas, comeu o pimentão e depois a Nici. Aquilo havia sido meio constrangedor, a aposta foi feita na frente de vários colegas da escola. Ele engoliu o pimentão, segurou o vômito, saiu junto com a Nici para o matagal e fez o serviço. Não sentiu prazer naquilo e sabia disso, mas jamais contou isso a alguém. Foi tudo tão rápido que ela, experiente com era, deve ter achado estranho. Ainda ficaram um tempo conversando dentro do mato para que o colegas não encherem o saco. Na verdade ele detestou aquilo, não viu graça e depois se sentiu sujo. Isso o incomodava, mas nunca falou no assunto, podiam pensar que era um viado. Depois da Nici ele teve mais duas experiências, ambas com profissionais. A sensação não foi diferente. Só mais caro.

O farol da CG iluminou a Rua Dante Alighieri nos fundos da escola. Ele passou pela construção abandonada como já fizera milhares de vezes e se preparava para virar à esquerda quando algo chamou sua atenção. Freou forte a CG e parou abruptamente voltado para o matagal. Alguém estava saindo do mato, cambaleando. Ele conhecia aquela roupa preta.
“Porra, é a Andréa?!”

Uma garota loira vestida de preto estava encostada em um galho baixo, próximo a uma das paredes das ruínas da construção. Ele a viu saindo de algum lugar ali dentro, cambalear um pouco e se encostar na árvore. Seu vestido preto estava meio torto no corpo, a faixa, antes na cabeça estava presa ao pescoço e os cabelos soltos. Mas sim, era a tal Andréa.

Ele acelerou a moto e subiu as sobras de meio-fio. Parou a CG próximo à construção, desligou, tirou o chaveiro e desceu. Pendurou o capacete no retrovisor e foi em direção a ela. Parecia que ela ainda não o tinha visto, pois não se mexeu, exceto para tentar arrumar o cabelo. Ela soltou o galho, levantou a cabeça e deu dois passos para frente, então o viu. Ela se assustou, ameaçou dar um passo atrás, mas então o reconheceu e parou. Ele ainda não havia chegado até onde ela estava, mas também parou.

“Andréa? O que você ta fazendo aqui?”
“Como você sabe meu nome? É amigo do Valdo?”, disse ela olhando fixamente em seus olhos.
Ele se aproximou, ficou em frete a ela que não se moveu. Realmente ela era bonita, mesmo desarrumada como estava era uma garota bonita. Ela lhe lembrava alguém, mas não sabia quem. Era como se já a conhecesse, sentia que já a conhecia. Ele sentia algo no estômago, uma sensação incômoda, como se houvesse engolido um cubo de gelo.
“Não, eu te vi na festa, perguntei seu nome. Cadê o Valdo?”, ela baixou o rosto, olhou para o lado. Os cabelos claros soltos caíam pelos ombros e em volta do rosto, a maquiagem estava borrada, como se tivesse chorado. Então notou que havia uma marca em seu rosto, uma coisa escura abaixo do olho esquerdo. Ela percebeu seus olhos, levou a mão esquerda aos cabelos e os colocou mais à frente.
“Não sei do Valdo, ele...”, e se calou. Olhou em seus olhos. Eram claros, não sabia se verdes ou azuis, mas eram claros. Ela havia chorado. E ele já havia entendido.
“Ele te trouxe aqui, né? E te deixou depois?”

Ela baixou os olhos de novo e balançou a cabeça para confirmar. Sim. Ele havia entendido. Valdo, aquele riquinho filho da puta, havia entrado com ela no matagal, provavelmente pelo outro lado, onde havia uma picada na mata pela qual carros tinham acesso. Deve ter rolado um amasso e ela deve ter dito não. O Valdo, claro, insistiu e tentou tirar sua roupa, ela deve ter tentado impedir. Foi aí que o Valdo deu a porrada e ela saiu correndo pelo mato.

“Caralho, o Valdo é foda.”, pensou enquanto imaginava toda a situação. As roupas da Andréa estavam amassadas, a meia calça rasgada deixava ver os pequenos pelos claros da perna esquerda. Ela estava sem sapatos. Ele imaginou o merdinha do Valdo passando a mão pelo seu corpo. Ela saiu com ele da festa, entrou no seu carro, estava grudada nele.Um pensamento cruzou sua cabeça: “Merda! Essa putinha deixou ele vir até aqui e depois queria que ele fosse embora?”, é isso fazia sentido. “Por que essa patricinha deixou ele vir até aqui? O que ela esperava?”, é, o que Valdo fez fazia sentido. Ela era bonita, gostosa. Essa porra de roupa curta, rebolando no meio da festa. Claro que ela estava se oferecendo, é, estava mesmo.

Ele sentiu algo estranho, estava ficando excitado. A mulher que ele queria a noite toda estava na sua frente. Não era uma aposta, não precisava pagar. Era só pegar. Olhou em volta, não havia ninguém ali. Não havia casas daquele lado, a Dante Alighieri era sempre deserta. Quem iria saber?

“Você deixou ele vir até aqui e depois queria ir embora?”
“O que? Como assim? Me leva embora!”, disse ela. Ele a olhou por um momento.
“Tira a roupa.”
“Hã?”

Foi só o que ela disse antes que ele levasse a mão esquerda ao seu ombro. Aí tudo aconteceu muito rápido. Ela bateu em sua mão a jogando para o lado e empurrou seu ombro. O tapa em sua mão doeu, o empurrão o desequilibrou. Seu coração disparou, um frio glacial congelou o lado esquerdo do peito. Raiva. Ele usou a mão direita e bateu em sua cabeça. O pesado cadeado do portão produziu um som seco quando a atingiu na lateral da cabeça, na altura do olho esquerdo. Ela girou sobre a perna direita e caiu barriga para baixo. Não houve nenhum gemido, nenhum grito, nada. Olhou o corpo no chão, o vestido curto havia levantado, suas pernas estavam meio abertas. Ele se aproximou, se abaixou ao seu lado. Não havia sangue. Ele olhou em volta de novo, colocou as mãos no chão. Não pensava, agia movido por um instinto que não conhecia. Levantou-se e foi até a CG ali perto e a empurrou para dentro das paredes em ruína. Pegou Andréa pelos braços e a puxou para dentro da mata. A arrastou por uns 15 metros e encontrou um tronco caído. Deixou seu corpo no chão de novo, e a virou. Estava escuro, mas ele via seu rosto claro e os cabelos desgrenhados ao redor. Sentou-se no tronco e pousou o cadeado com a chave da motocicleta ao seu lado. Seu coração batia forte, o ouvia como se estivesse fora do peito. Ajoelhou-se ao lado dela e começou a tentar tirar as roupas. Levantou o vestido até a barriga, mas não conseguia subi-lo mais. Fez mais força e sentiu que o rasgou, deve ter se prendido em alguma coisa no chão. Colocou as mãos nas laterais da costura rasgada e puxou. O Vestido se abriu até o pescoço, mostrando uma calcinha preta de malha e um sutiã com rendas na frente. Ela tinha a cintura fina, peitos pequenos. Seu corpo claro aparecia bem na pouca luz do matagal. O rosto estava virado de lado, uma grande marca escura cobria toda a lateral da cabeça. Não a tocou. Ajoelhou-se ao lado e se masturbou sobre o corpo inerte de Andréa.

Ele não demorou a gozar. Foi rápido, intenso, como nunca havia sentido antes. Não se sentia sujo, não sentia vergonha. Tudo estava quieto, muito quieto. Ficou uns instantes admirando sua obra e então se levantou. Fechou a calça e sentou-se de novo ao lado das chaves. Lembrou-se de um filme, arrancou um fio de seu cabelo e colocou em frente ao nariz de Andréa. O cabelo não se moveu. Pela primeira vez ele se deu conta de que ela estava morta. Sem saber bem porque deu um pequeno sorriso. Pegou as chaves e o cadeado e andou até a margem do matagal. Olhou durante um bom tempo para fora sem sair das sombras. Voltou ao corpo e o cobriu com folhas caídas e uns galhos. Andou novamente até a saída do mato e esperou. Quando teve certeza de não haver ninguém na rua saiu das árvores e entrou nas ruínas. Colocou o capacete, empurrou a motocicleta até a rua, pulou sobre ela e deu a partida.

Virou à esquerda saindo da Dante Alighieri e se esqueceu de Andréa, ela seria problema do Valdo.

“Será que o Paraíba tem banana hoje?”