Era a mesma coisa de sempre. Um buraco enfumaçado, cheirando a cigarro, desodorante vencido e perfume barato. Aquilo já deve ter sido um lugar bem freqüentado, talvez na época de JK, mas hoje era só mais um bar de chão imundo e aperitivos duvidosos. Por todo lado o resto da sociedade enchia a cara, cidadãos de segunda, se embriagando com bebida de terceira. Nessa hora da madrugada todos os tipos estão por aqui, bebendo e se empanturrando com vísceras e coisas que nem eles conseguem identificar.
Um sujeito velho, com cara de cansado e usando uma camisa branca encardida me pergunta "vai beber o que?". Peço uma cerveja, ele se vira sem falar nada e desaparece na fumaça. O maldito nem perguntou a marca. Quando volta trás uma garrafa sem rótulo e um copo ensebado. Tira a tampa e entorna meio copo de um líquido meio amarelo, o resto é preenchido com uma espuma pegajosa. Uma coisa escura flutua sobre a espuma. O ser branco encardido desaparece na fumaça de novo. Ainda me pergunto como vim parar aqui, o que diabos me levou a este fim de mundo? A cerveja está quente, tem gosto metálico. A coisa branca volta e deixa um pedaço de papel sobre a mesa, debaixo da toalha: "Scol I". Parece que agora eu sei o que estou bebendo.
Trabalho. Estou aqui pelo trabalho. O dono do contrato queria me ver aqui, talvez ele pense que este seja o ambiente ideal para fechar o negócio e encomendar o serviço. Esse cara anda vendo muita televisão.
O primeiro contato foi feito como sempre, um telefonema para meu agente. Agente é um nome pomposo para o filho da puta que fica com 10% do contrato. Mas só ele me conhece, só ele sabe como me achar. O processo é simples, ele coloca um anúncio em um jornal por 5 dias e eu respondo. Ele dá o serviço, se me interessar marco o encontro. Mas o contratante nunca sabe quem sou, eu o procuro. Hoje eu estou aguardando um sujeito alto e de chapéu de vaqueiro. "Que diabos é um chapéu de vaqueiro?", nem termino o pensamento e o rei dos chapéus de vaqueiros irrompe pela porta de correr da birosca. Uma figura saída da arena de Barretos. Pelos fundos da arena. Calça jeans nova, bota, um cinto que poderia prender um elefante , uma camisa vermelha e um chapelão preto em cima de um punhado de cabelos brancos mantidos no lugar com duas toneladas de gel ou óleo de soja. Carrega uma bolsa pesada no ombro direito. Ele passa por mim e senta-se em uma mesa no fundo do inferninho. Logo depois um tipo mal encarado segue o mesmo caminho e vai se sentar na mesa ao lado. Quando se senta noto o volume em seu tornozelo, um snub de aço carbono. Também trás algo maior na cintura. Policial. Ele deveria ter vindo sozinho, esse era o acordo. A coisa não começou bem. Nunca começa.
Deixo passar uns 15 minutos sem que nada aconteça. Preciso ter certeza de que não tem mais ninguém por lá. O contratante parece nervoso, está na terceira cerveja, olha tanto para o cara do snub que fica impossível o boteco inteiro não notar. Preciso ser rápido, eles chamam muita atenção. Acaricio o punho 1911-A1 com a ponta dos dedos e me certifico que a trava está no lugar. Me levanto e passo pelo chapelão, dou a volta e me sento na cadeira ao seu lado. O mal encarado se mexe e leva a mão a cintura.
"É você?", pergunta o chapelão.
"Depende de você. Mas antes mande o seu amigo ali dar uma volta.", digo virando os olhos para o cara do snub. O chapelão fica parado me olhando, como que pensando se valia à pena se arriscar comigo. "Vai lá pra fora", rosna para o policial. O cara se levanta, passa por mim e noto o punho de uma velha .380, sem coldre, envolto apenas pelas banhas da barriga e as pregas encardidas da calça. "Civil, das antigas, relapso", penso enquanto o sujeito some na fumaça.
"Você tem que tombar um cara pra mim. A grana tá aqui na bolsa", diz o chapeleiro louco movendo a mão em direção à bolsa. Deslizo a mão para o bolso direito e um movimento rápido do polegar abro o Spyderco Police e o encosto na camisa de rodeio do cara do chapéu. "Calma aí companheiro, volta a mão pra mesa e vamos conversar".
O homem do chapéu se assusta e puxa a mão rápido demais, entornando a coisa amarela que bebia pela mesa. "Caralho!", exclama, não sei se pelo copo derrubado ou pela lâmina inox espetando o seu bucho cheio de merda.
"Fica frio. Eu sou o cara sim, mas precisamos conversar primeiro. O dinheiro vem depois."
Levanto o copo caído enquanto o cara do chapéu se recompõe. Ele suava como um porco, o sebo do cabelo começava a escorrer pela lateral da cabeça. São sempre assim, valentes o suficiente para mandar matar, mas sempre covardes.
Guardo o Spyderco e me ajeito na cadeira ao seu lado. Olho em volta e pelo visto ninguém na espelunca notou a lambança. Melhor assim, menos sujeira.
"Diga, o que você quer?"
Ele suspira, tira o chapéu e passa mão pela massa ensebada que chama de cabelo. As abas pretas voltam para o topo da cabeça. "Tem um sujeito que trabalha pra mim, tá me trazendo problemas. Você vai resolver pra mim."
"Já pensou em demití-lo?"
"Não posso, é meu afilhado."
"Mas pode mandar matar o infeliz..." penso comigo. Corja imunda. "Quem é e onde acho?"
"Ataíde, Ataíde dos Santos Silveira. Mora no São Geraldo, mas passa o dia todo na fazenda do Cradinho. Ele trabalha naquela fábrica de queijo lá, sabe onde é?", sim, seu sabia onde era.
A fazenda do Cradinho era um lugar com história. É da época do império, era uma propriedade imensa que foi sendo partilhada ao longo dos anos, brigas de família, heranças, estas coisas de gente rica. Hoje é de um milionário de Goiás. Foi invadida muitas vezes por movimentos sociais, estes mesmos que botam fogo nas casas e destroem as plantações no nome de uma tal reforma agrária. Palhaçada. Já fiz um trabalho lá, líder sindical, ou seria social? Sei lá, mas foi um trabalho bonito. Nunca acharam o cara. Ninguém pensou em procurar na fossa da casa grande.
"E como quer?", pergunto ao vaqueiro.
"Como assim? Quero o cara morto porra!"
"Só isso? Sem detalhes?"
"Mata o cara e pronto."
Odeio gente sem imaginação. "O que tem na bolsa?"
"Dez mil. Mas como vou saber se vai fazer o serviço? Se não fizer como eu fico?"
"Provavelmente morto. Se eu não fizer o serviço este vai ser o seu menor problema." Me levanto, pego a bolsa e saio de perto daquele monte de estrume. Eu tinha um trabalho a ser feito.
O dia começou mal, a porcaria que bebi na espelunca ontem deixou lembranças na louça imaculada do meu banheiro. “Merda de buteco fudido!”, o pensamento desapareceu quando me lembrei que precisava de um carro para o trabalho. Normalmente não gosto de usar meu carro para trabalhar, isso pode me ligar ao trabalho, mas às vezes não tem problema. Dessa vez resolvi ir nele mesmo, a Cradinho não era longe e eu já conhecia o terreno. O líder social tinha sumido à noite, sem rastros e sem carros. Um problema a menos. Agora precisava encontrar o melhor meio de executar o trabalho do queijeiro. Pesquisa, pesquisa...
A viagem de 25 km até a fábrica de queijo foi rápida, era uma estrada bonita, cercada de pastos e milhares de vacas pastando, produzindo esterco e gás de efeito estufa. Uma bela plantação de picanhas.
A fazenda do Cradinho era famosa pela produção de queijo e leite de qualidade, coisa cara. Tinha uma sede dentro do terreno e uma loja na frente da fábrica, bem na margem da rodovia. Vendiam queijos e serviam lanches com produtos da fazenda. O chapelão colocou um dossiê ridículo do tal do Ataíde dentro da bolsa, junto com a metade do pagamento. Lá dizia que ele trabalhava como supervisor na fábrica, turno do dia. Ele entrava às 9, saía à 5. Perfeito. O melhor era a foto que acompanhava o dossiê, o chapeleiro louco abraçado ao Ataíde e mais duas pessoas. Pra não haver dúvidas havia um círculo feito com esferográfica em volta da cabeça do afilhado... Esse cara via muita televisão.
Passava um pouco das oito da manhã, fazia um frio confortável quando encostei o carro em frente à loja. Desci, olhei em volta e me espreguicei. A entrada para a fábrica ficava bem ao lado da loja, um portão velho repintado de branco umas 30 vezes. Logo atrás dele ficava o estacionamento e o prédio da fábrica. Entrei na loja e fingi estar olhando as prateleiras laterais. Havia uma janela nesta parede que dava uma visão perfeita para o pátio do estacionamento da fábrica. Pedi um café, pão de queijo e me sentei em uma mesa com vista para a janela. Não demorou e um Escort azul claro passou pelo portão branco. Um sujeito magrelo e quase sem cabelos desceu com cara de sono. Era o Ataíde. Subiu os poucos degraus da entrada do escritório e passou pela porta da fábrica. Anotei mentalmente a placa e terminei meu café. Comprei duas barrinhas de mussarela, voltei para o carro e segui na estrada. Mais tarde me encontro com ele.
Uma das coisas mais difíceis nessa profissão é decidir como executar o serviço. Muitas vezes é preciso pensar muito para que não use o método errado. O tal do Ataíde era uma vareta, dava pra acabar com ele só na porrada, mas eu não gosto de usar as mãos assim.Precisava de um jeito melhor e menos sujo. Pelo dossiê, ele vivia em um pequeno apartamento no segundo andar de um prédio sujo no centro. No momento estava sozinho, já que a mulher, sobrinha do Zé do chapéu, o havia deixado há pouco tempo. Estacionei duas ruas depois do prédio sujo e andei até o endereço. Não havia ninguém na porta do prédio, uma coisa enferrujada e faltando duas dobradiças. Subi as escadas e saí em um corredor pequeno com quatro portas. Era um pequeno condomínio de apartamentos antigos com paredes mofadas e chão de cerâmica barata. Fui até a porta do apartamento 201. Não havia companhia, a velha porta marrom tinha uma maçaneta redonda e antiga, chave cilíndrica típica. Não seria difícil entrar, mas tive outra idéia.
Saí do prédio como se morasse lá, andando sem olhar para trás e na direção contrária de onde parei o carro. Encontrei o que procurava uma rua depois, um pequeno mercadinho de secos e molhados. Comprei três latas de inseticida em spray e um tubo de super cola. Voltei pela outra rua para carro. No caminho parei em uma farmácia e comprei uma caixa de luvas cirúrgicas, um par de luvas grossas de borracha e um barbeador descartável. Tinha uma coisinha para preparar.
Nunca gostei de trabalhar com venenos, era uma coisa perigosa e meio imprevisível. Mas as aulas que tive ainda estavam frescas na memória e eu sentia que precisava aprimorar algumas ferramentas. A redução do inseticida para extrair o seu princípio ativo demorava um pouco e era bem perigosa. Ferver veneno não é exatamente a coisa mais saudável do mundo. A fervura levantou rápido e eu tinha que me manter contra o vento, não confio muito nestas máscaras baratas. Precisava manter o fogo baixo, aquilo não era um flambado. Depois de uns minutos o caldo verde e grosso que eu queria estava no fundo da panela. Desmontei o barbeador usando um alicate e separei as três lâminas. Calcei as luvas de borracha e passei com cuidado as lâminas pelo caldo grosso no fundo da panela, Dalí as deixei para secar. Processo complicado e bem delicado. Era quase meio dia. Saí de casa e fui almoçar. Comi um belo espaguete com filé na cantina do Tutti, um italiano das antigas, cliente habitual. Era um bom restaurante, com a vantagem de que eu não pagava nunca. Voltei para casa, calcei novamente as luvas e embrulhei as lâminas já secas em um papel grosso. Segui de taxi até o prédio sujo onde o Ataíde morava. Entrei direto pela ferrugem sem dobradiças e subi as escadas devagar. Levava um pacote debaixo do braço e uma pequena bolsa no ombro. Tirei dois pares de luvas da bolsa, as calcei e peguei o pacote com as lâminas. Agora vinha a parte difícil, se alguém aparecesse nesse momento seria difícil explicar minha presença ali. Fui até a porta do 201 e passei um pouco de super cola na parte de trás da maçaneta. Com muito cuidado desembrulhei as lâminas e fixei duas delas na cola da maçaneta. Qualquer um que pegasse naquela maçaneta iria receber um corte fino na pele.
Passava um pouco das uma e meia, ainda tinha muito tempo antes do Ataíde voltar. Ele saía da fábrica as cinco, deveria chegar em casa uma meia hora depois. Era uma boa hora para perambular por aí e tomar um café.
Continua...
Um sujeito velho, com cara de cansado e usando uma camisa branca encardida me pergunta "vai beber o que?". Peço uma cerveja, ele se vira sem falar nada e desaparece na fumaça. O maldito nem perguntou a marca. Quando volta trás uma garrafa sem rótulo e um copo ensebado. Tira a tampa e entorna meio copo de um líquido meio amarelo, o resto é preenchido com uma espuma pegajosa. Uma coisa escura flutua sobre a espuma. O ser branco encardido desaparece na fumaça de novo. Ainda me pergunto como vim parar aqui, o que diabos me levou a este fim de mundo? A cerveja está quente, tem gosto metálico. A coisa branca volta e deixa um pedaço de papel sobre a mesa, debaixo da toalha: "Scol I". Parece que agora eu sei o que estou bebendo.
Trabalho. Estou aqui pelo trabalho. O dono do contrato queria me ver aqui, talvez ele pense que este seja o ambiente ideal para fechar o negócio e encomendar o serviço. Esse cara anda vendo muita televisão.
O primeiro contato foi feito como sempre, um telefonema para meu agente. Agente é um nome pomposo para o filho da puta que fica com 10% do contrato. Mas só ele me conhece, só ele sabe como me achar. O processo é simples, ele coloca um anúncio em um jornal por 5 dias e eu respondo. Ele dá o serviço, se me interessar marco o encontro. Mas o contratante nunca sabe quem sou, eu o procuro. Hoje eu estou aguardando um sujeito alto e de chapéu de vaqueiro. "Que diabos é um chapéu de vaqueiro?", nem termino o pensamento e o rei dos chapéus de vaqueiros irrompe pela porta de correr da birosca. Uma figura saída da arena de Barretos. Pelos fundos da arena. Calça jeans nova, bota, um cinto que poderia prender um elefante , uma camisa vermelha e um chapelão preto em cima de um punhado de cabelos brancos mantidos no lugar com duas toneladas de gel ou óleo de soja. Carrega uma bolsa pesada no ombro direito. Ele passa por mim e senta-se em uma mesa no fundo do inferninho. Logo depois um tipo mal encarado segue o mesmo caminho e vai se sentar na mesa ao lado. Quando se senta noto o volume em seu tornozelo, um snub de aço carbono. Também trás algo maior na cintura. Policial. Ele deveria ter vindo sozinho, esse era o acordo. A coisa não começou bem. Nunca começa.
Deixo passar uns 15 minutos sem que nada aconteça. Preciso ter certeza de que não tem mais ninguém por lá. O contratante parece nervoso, está na terceira cerveja, olha tanto para o cara do snub que fica impossível o boteco inteiro não notar. Preciso ser rápido, eles chamam muita atenção. Acaricio o punho 1911-A1 com a ponta dos dedos e me certifico que a trava está no lugar. Me levanto e passo pelo chapelão, dou a volta e me sento na cadeira ao seu lado. O mal encarado se mexe e leva a mão a cintura.
"É você?", pergunta o chapelão.
"Depende de você. Mas antes mande o seu amigo ali dar uma volta.", digo virando os olhos para o cara do snub. O chapelão fica parado me olhando, como que pensando se valia à pena se arriscar comigo. "Vai lá pra fora", rosna para o policial. O cara se levanta, passa por mim e noto o punho de uma velha .380, sem coldre, envolto apenas pelas banhas da barriga e as pregas encardidas da calça. "Civil, das antigas, relapso", penso enquanto o sujeito some na fumaça.
"Você tem que tombar um cara pra mim. A grana tá aqui na bolsa", diz o chapeleiro louco movendo a mão em direção à bolsa. Deslizo a mão para o bolso direito e um movimento rápido do polegar abro o Spyderco Police e o encosto na camisa de rodeio do cara do chapéu. "Calma aí companheiro, volta a mão pra mesa e vamos conversar".
O homem do chapéu se assusta e puxa a mão rápido demais, entornando a coisa amarela que bebia pela mesa. "Caralho!", exclama, não sei se pelo copo derrubado ou pela lâmina inox espetando o seu bucho cheio de merda.
"Fica frio. Eu sou o cara sim, mas precisamos conversar primeiro. O dinheiro vem depois."
Levanto o copo caído enquanto o cara do chapéu se recompõe. Ele suava como um porco, o sebo do cabelo começava a escorrer pela lateral da cabeça. São sempre assim, valentes o suficiente para mandar matar, mas sempre covardes.
Guardo o Spyderco e me ajeito na cadeira ao seu lado. Olho em volta e pelo visto ninguém na espelunca notou a lambança. Melhor assim, menos sujeira.
"Diga, o que você quer?"
Ele suspira, tira o chapéu e passa mão pela massa ensebada que chama de cabelo. As abas pretas voltam para o topo da cabeça. "Tem um sujeito que trabalha pra mim, tá me trazendo problemas. Você vai resolver pra mim."
"Já pensou em demití-lo?"
"Não posso, é meu afilhado."
"Mas pode mandar matar o infeliz..." penso comigo. Corja imunda. "Quem é e onde acho?"
"Ataíde, Ataíde dos Santos Silveira. Mora no São Geraldo, mas passa o dia todo na fazenda do Cradinho. Ele trabalha naquela fábrica de queijo lá, sabe onde é?", sim, seu sabia onde era.
A fazenda do Cradinho era um lugar com história. É da época do império, era uma propriedade imensa que foi sendo partilhada ao longo dos anos, brigas de família, heranças, estas coisas de gente rica. Hoje é de um milionário de Goiás. Foi invadida muitas vezes por movimentos sociais, estes mesmos que botam fogo nas casas e destroem as plantações no nome de uma tal reforma agrária. Palhaçada. Já fiz um trabalho lá, líder sindical, ou seria social? Sei lá, mas foi um trabalho bonito. Nunca acharam o cara. Ninguém pensou em procurar na fossa da casa grande.
"E como quer?", pergunto ao vaqueiro.
"Como assim? Quero o cara morto porra!"
"Só isso? Sem detalhes?"
"Mata o cara e pronto."
Odeio gente sem imaginação. "O que tem na bolsa?"
"Dez mil. Mas como vou saber se vai fazer o serviço? Se não fizer como eu fico?"
"Provavelmente morto. Se eu não fizer o serviço este vai ser o seu menor problema." Me levanto, pego a bolsa e saio de perto daquele monte de estrume. Eu tinha um trabalho a ser feito.
O dia começou mal, a porcaria que bebi na espelunca ontem deixou lembranças na louça imaculada do meu banheiro. “Merda de buteco fudido!”, o pensamento desapareceu quando me lembrei que precisava de um carro para o trabalho. Normalmente não gosto de usar meu carro para trabalhar, isso pode me ligar ao trabalho, mas às vezes não tem problema. Dessa vez resolvi ir nele mesmo, a Cradinho não era longe e eu já conhecia o terreno. O líder social tinha sumido à noite, sem rastros e sem carros. Um problema a menos. Agora precisava encontrar o melhor meio de executar o trabalho do queijeiro. Pesquisa, pesquisa...
A viagem de 25 km até a fábrica de queijo foi rápida, era uma estrada bonita, cercada de pastos e milhares de vacas pastando, produzindo esterco e gás de efeito estufa. Uma bela plantação de picanhas.
A fazenda do Cradinho era famosa pela produção de queijo e leite de qualidade, coisa cara. Tinha uma sede dentro do terreno e uma loja na frente da fábrica, bem na margem da rodovia. Vendiam queijos e serviam lanches com produtos da fazenda. O chapelão colocou um dossiê ridículo do tal do Ataíde dentro da bolsa, junto com a metade do pagamento. Lá dizia que ele trabalhava como supervisor na fábrica, turno do dia. Ele entrava às 9, saía à 5. Perfeito. O melhor era a foto que acompanhava o dossiê, o chapeleiro louco abraçado ao Ataíde e mais duas pessoas. Pra não haver dúvidas havia um círculo feito com esferográfica em volta da cabeça do afilhado... Esse cara via muita televisão.
Passava um pouco das oito da manhã, fazia um frio confortável quando encostei o carro em frente à loja. Desci, olhei em volta e me espreguicei. A entrada para a fábrica ficava bem ao lado da loja, um portão velho repintado de branco umas 30 vezes. Logo atrás dele ficava o estacionamento e o prédio da fábrica. Entrei na loja e fingi estar olhando as prateleiras laterais. Havia uma janela nesta parede que dava uma visão perfeita para o pátio do estacionamento da fábrica. Pedi um café, pão de queijo e me sentei em uma mesa com vista para a janela. Não demorou e um Escort azul claro passou pelo portão branco. Um sujeito magrelo e quase sem cabelos desceu com cara de sono. Era o Ataíde. Subiu os poucos degraus da entrada do escritório e passou pela porta da fábrica. Anotei mentalmente a placa e terminei meu café. Comprei duas barrinhas de mussarela, voltei para o carro e segui na estrada. Mais tarde me encontro com ele.
Uma das coisas mais difíceis nessa profissão é decidir como executar o serviço. Muitas vezes é preciso pensar muito para que não use o método errado. O tal do Ataíde era uma vareta, dava pra acabar com ele só na porrada, mas eu não gosto de usar as mãos assim.Precisava de um jeito melhor e menos sujo. Pelo dossiê, ele vivia em um pequeno apartamento no segundo andar de um prédio sujo no centro. No momento estava sozinho, já que a mulher, sobrinha do Zé do chapéu, o havia deixado há pouco tempo. Estacionei duas ruas depois do prédio sujo e andei até o endereço. Não havia ninguém na porta do prédio, uma coisa enferrujada e faltando duas dobradiças. Subi as escadas e saí em um corredor pequeno com quatro portas. Era um pequeno condomínio de apartamentos antigos com paredes mofadas e chão de cerâmica barata. Fui até a porta do apartamento 201. Não havia companhia, a velha porta marrom tinha uma maçaneta redonda e antiga, chave cilíndrica típica. Não seria difícil entrar, mas tive outra idéia.
Saí do prédio como se morasse lá, andando sem olhar para trás e na direção contrária de onde parei o carro. Encontrei o que procurava uma rua depois, um pequeno mercadinho de secos e molhados. Comprei três latas de inseticida em spray e um tubo de super cola. Voltei pela outra rua para carro. No caminho parei em uma farmácia e comprei uma caixa de luvas cirúrgicas, um par de luvas grossas de borracha e um barbeador descartável. Tinha uma coisinha para preparar.
Nunca gostei de trabalhar com venenos, era uma coisa perigosa e meio imprevisível. Mas as aulas que tive ainda estavam frescas na memória e eu sentia que precisava aprimorar algumas ferramentas. A redução do inseticida para extrair o seu princípio ativo demorava um pouco e era bem perigosa. Ferver veneno não é exatamente a coisa mais saudável do mundo. A fervura levantou rápido e eu tinha que me manter contra o vento, não confio muito nestas máscaras baratas. Precisava manter o fogo baixo, aquilo não era um flambado. Depois de uns minutos o caldo verde e grosso que eu queria estava no fundo da panela. Desmontei o barbeador usando um alicate e separei as três lâminas. Calcei as luvas de borracha e passei com cuidado as lâminas pelo caldo grosso no fundo da panela, Dalí as deixei para secar. Processo complicado e bem delicado. Era quase meio dia. Saí de casa e fui almoçar. Comi um belo espaguete com filé na cantina do Tutti, um italiano das antigas, cliente habitual. Era um bom restaurante, com a vantagem de que eu não pagava nunca. Voltei para casa, calcei novamente as luvas e embrulhei as lâminas já secas em um papel grosso. Segui de taxi até o prédio sujo onde o Ataíde morava. Entrei direto pela ferrugem sem dobradiças e subi as escadas devagar. Levava um pacote debaixo do braço e uma pequena bolsa no ombro. Tirei dois pares de luvas da bolsa, as calcei e peguei o pacote com as lâminas. Agora vinha a parte difícil, se alguém aparecesse nesse momento seria difícil explicar minha presença ali. Fui até a porta do 201 e passei um pouco de super cola na parte de trás da maçaneta. Com muito cuidado desembrulhei as lâminas e fixei duas delas na cola da maçaneta. Qualquer um que pegasse naquela maçaneta iria receber um corte fino na pele.
Passava um pouco das uma e meia, ainda tinha muito tempo antes do Ataíde voltar. Ele saía da fábrica as cinco, deveria chegar em casa uma meia hora depois. Era uma boa hora para perambular por aí e tomar um café.
Continua...